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Texto

N. 21 - 24 de Maio de 1992

L'OSSERVATORE ROMANO

(279) 3

Dois modelos de santidade

para a vida eclesial

dizia - porque sentia dentro de mim uma força misteriosa que me amparava». O nome Bakhita - como the tinham chamado os seus raptores - significa Afortunada e tal, de facto, se tornou, graças ao Deus de toda a consolação, que a segurava sempre pela mão e caminhava ao lado dela.

Chegada a Veneza, pelas vias misteriosas da Divina Providência, Bakhita bem depressa se abria à graça. O baptismo e, depois de alguns anos, a profissão religiosa entre as Irmãs Canossianas, que a tinham acolhido e instruído, foram as consequências lógicas da descoberta do tesouro evangélico, pelo qual sacrificou tudo, também o seu retorno, sendo livre, à terra natal. Como Madalena de Canossa, também cia queria viver só para Deus, é com constância heróica encaminhou-se, humilde e confiante, pela via da fidelidade ao maior amor. A sua fé era sólida, límpida, ardente. «Se soubésseis que grande alegria é conhecer Deus!», costumava repetir.

6. A nova Beata passou 51 anos de vida religiosa canossíana, deixando-se guiar pela obediência num empenho quotidiano, humilde e escondido, mas rico de genuína caridade e de oração. Os habitantes de Schio, onde residiu durante quase o tempo todo, bem cedo descobriram na sua «Mãe Morena» - chamavam-lhe assim - uma humanidade rica no dom, uma força interior não comum que atraía. A sua vida consumiu-se numa incessante oração de anseio missionário, numa fidelidade humilde e heróica à caridade, que the permitiu viver a liberdade dos filhos de Deus e promove-la em redor de si.

No nosso tempo, em que a corrida desenfreada ao poder, ao dinheiro e ao prazer causa tanto desencorajamento, violência e solidão, a Irmã Bakhita é-nos dada de novo pelo Senhor como irmã universal, para que nos revele o segredo da

felicidade mais verdadeira: as Bem-aventuranças.

A sua é uma mensagem de bondade heróica, à imagem da bondade do Pai celeste. Ela deixou-nos um testemunho de reconciliação e de perdão evangélicos, que levará certamente conforto aos cristãos da sua pátria, o Sudão, tão duramente provados por um conflito que contínua há muitos anos, e que causou tantas vítimas. A fidelidade e a esperança deles são motivo de orgulho e de acção de graças para toda a Igreja. Neste momento de grandes tribulações, a Irmã Bakhíta precede-os na via da imitação de Cristo, do aprofundamento da vida cristã e da inabalável dedicação à Igreja. Ao mesmo tempo desejo, mais uma vez, dirigir um premente apelo aos responsáveis dos destinos do Sudão, a fim de que dêem realização aos afirmados ideais de paz e de concórdia; a fim de que o respeito dos direitos fundamentais do homem - e, em primeiro lugar, do direito à liberdade reiglosa - seja garantido a todos, sem discrimínaçØ étnicas ou religiosas.

Multo preocupante é a situação das centenas de milhar de refugiados das regiões meridionais, que a guerra constrangíu a abandonar casa e trabalho; recentemente também foram obrigados a deixar os campos, onde tinham encontrado alguma forma de assistência e foram levados para lugares desérticos, e até foi impedida a passagem livre dos comboios de socorro das agências íntemacionaís. A situação deles é trágica e não pode deixar-nos insensíveis.

Recomendo vivamente às Entidades internacionais de assistência que continuem a enviar a sua ajuda providente, necessária e urgente.

Ao saudar a delegação da Igreja do Sudão, presente nesta celebração, dirijo um afectuoso pensamento, acompanhado pela oração, a toda a Igreja naquele País: aos Bispos, ao Clero diocesano e missio

nárío, aos Leigos empenhados na pastoral, e também aos Catequistas, colaboradores generosos e necessários para a propagação da Verdade, da Palavra e do Amor de Deus.

As populaçØ do Sudão estão sempre presentes no meu coração e nas minhas oraçØ: confio-as à intercessão da nova Beata Josefina Bakhíta.

7. «Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como Eu vos amei, vós também vos deveis amar uns aos outros. É por isto que todos saberão que sois Meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo. 13, 34-35).

Com estas palavras de Jesus concluí-se o Evangelho da Missa de hoje. Nesta frase evangélica encontramos a síntese de toda a santidade; da santidade que alcançaram, por caminhos diversos mas convergentes na mesma e única meta, Josemaria Escrívá de Balaguer e Josefina Bakhita. Eles amaram a Deus com toda a força do seu coração e deram prova de uma caridade, levada até ao heroísmo

mediante as obras de serviço aos homens, seus irmãos. Por isso a Igreja os eleva hoje às honras dos altares e os apresenta como exemplos na imitação de Cristo, que nos amou e Se entregou a Si mesmo por nós (cf. Gál. 2, 20).

8. «Agora foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado n'Ele» (Jo. 13, 31): o mistério pascal da glória. Através do Filho do Homem esta glória estende-se a tudo o que é visível e invisível:

«Glorifiquem-Vos, Senhor, as Vossas obras, e bendigam-Vos os Vossos santos.

Apregoem a glória do Vosso Reino» (Si. 145/144, 10-11).

Eis o Filho do Homem: «Não tinha... de sofrer essas coisas para entrar na Sua glória?».

Eis aqueles que, de geração em geração, seguiram Cristo: «Através de multas tribulações, eles entraram no Reino de Deus».

«O Vosso Reino estende-se por todos os séculos» (Si. 145/144, 13).

Amém.

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